Por delimitar o poder de intervenção do estado no que há de mais sagrado à pessoa sua liberdade corporal , o Código Penal é a lei mais importante de um país depois da Constituição Federal.
A afirmação foi feita pelo ministro Gilson Dipp, próximo
vice-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em audiência
pública no Senado Federal, nesta terça-feira (14).
O ministro
destacou que a discussão de pontos polêmicos não pode prejudicar o
andamento do Projeto de Lei do Senado 236/2012, que trata da reforma do Código Penal. Para Dipp, a proposta agora será debatida em seu local próprio, que é a casa dos representantes do povo.
Polêmicas
A
lei deve valer e ser entendida de igual forma pelo empresário da
avenida Paulista e pelo ribeirinho da Amazônia. Divergências culturais,
sociais e filosóficas precisam ser contempladas. Esses debates ocorreram
na comissão de juristas e agora chegam ao Congresso, para discussão
pelos legítimos representantes da sociedade, asseverou o ministro Dipp.
Segundo
o ministro, que assume a vice-presidência do STJ em 31 de agosto, o
Senado não pode fugir do debate. Para ele, o ativismo judicial, em
especial o exercido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), decorre da
falta de discussão de certos temas polêmicos pelo parlamento.
Dipp
acredita que mais de 80% do Código pode ser aprovado sem maiores
divergências. Isso faz parte do processo de elaboração de leis. Nós
teremos um novo Código Penal no ano que vem, as polêmicas não vão prejudicá-lo, avaliou.
Não
acredito que esses pontos serão excluídos. Podem ser alterados, isso é
próprio do parlamento, mas não simplesmente retirados. O código é
voltado para o presente e tem os olhos no futuro, concluiu o ministro.
Defasagem
Segundo Dipp, o Código Penal
da década de 40 não traduz mais a hierarquia de valores da sociedade, a
vulnerabilidade dos cidadãos ou seus anseios. O código em vigor está
defasado diante da Constituição e de tratados internacionais já internalizados pelo Brasil. O sistema hoje é caótico e desproporcional, afirmou.
O
anteprojeto sistematizou mais de cem leis e 1.700 dispositivos penais,
reduzindo as normas incriminadoras para cerca de 800, em um único
código. Conforme destaque do desembargador José Muiños Piñeiro, algumas
leis vigentes desde o século XIX até hoje não foram nem revogadas nem
sujeitas ao crivo de recepção constitucional pelo STF, situação que se
pretende corrigir no novo código.
Valorização da vítima
Piñeiro também destacou que o novo Código Penal focou no respeito à vítima dos crimes. O Código Penal
em vigor inclui a vítima apenas como elemento a ser considerado pelo
juiz na fixação da pena em favor do réu, de acordo com sua conduta, que
pode ensejar o cometimento do crime, afirmou o desembargador.
A Constituição
traz uma série de direitos do acusado e do condenado, mas a vítima só
aparece uma única vez, no final, no artigo que trata da criação de um
fundo de compensação pelos danos, que até hoje não foi instituído. O
novo Código Penal traz mais respeito para a vítima, completou.
Entre
os exemplos disso, ele citou a fixação de alimentos devidos pelo réu em
favor da vítima de certos crimes, o fim do livramento condicional e
aumento do prazo para progressão de regime que em sua opinião dá um
tempo minimamente aceitável de pena concreta ao condenado e o fim do
crime continuado em condutas contrárias à vida ou à dignidade sexual.
Isso
impedirá casos como a chacina de Vigário Geral, em que o presidente do
júri fixou a pena em 449 anos de reclusão pela prática de 21 homicídios,
mas o STF, em habeas corpus, reduziu a condenação para 57 anos em razão
da continuidade delitiva, citou. Hoje, a continuidade obriga que o
magistrado considere no máximo três crimes, se praticados em um mesmo
contexto.
Legislação de emergência
O penalista
Luiz Flávio Gomes apontou que tanto a Organização das Nações Unidas
(ONU) quanto a Organização dos Estados Americanos (OEA) criticaram
recentemente a prática latino-americana de aprovar, reiteradamente, leis
penais de emergência, que dão uma aparente satisfação à sociedade, mas
não resolvem o problema.
Ele destacou a relevância do efeito
preventivo da codificação da norma penal. O Senado precisa fazer um
debate adulto e tranquilo diante das polêmicas. É preciso avançar, até
onde for possível, nessas questões, exortou.
Redução da maioridade
Um
dos principais questionamentos apresentados pelos senadores aos
juristas foi quanto à redução da maioridade penal. Segundo os
parlamentares, é uma demanda recorrente da sociedade. Apresentadas pelo
relator da comissão especial que analisa o novo código, senador Pedro
Taques (PDT-MT), as dúvidas colocadas abordam o caráter pétreo da norma
constitucional que impede a submissão de menores de 18 anos às leis
penais.
Os juristas explicaram que o tema não foi debatido na
comissão por se tratar de matéria constitucional, que não estaria no
escopo do mandato que o Senado lhes atribuiu, de tratar da lei ordinária
infraconstitucional o Código Penal e as demais leis criminais. Porém, eles apresentaram suas opiniões pessoais quanto ao tema.
Para o ministro Dipp, a norma constitucional não é cláusula pétrea. A Constituição Federal
é exaustiva, trata de coisas que não deveriam ser matéria
constitucional. As cláusulas pétreas são as que dizem respeito ao estado
brasileiro, à federação, à forma de governo. Falar de maioridade penal é
falar de política criminal, asseverou o ministro.
Gomes
divergiu. Para ele, o artigo que veda o tratamento criminal a menores de
18 anos é cláusula pétrea e, portanto, imutável. O Supremo já declarou
haver cláusula pétrea inclusive em matéria tributária, ponderou. Além
disso, só 1% dos crimes cometidos no país tem participação de menores,
completou. Ele também alertou a comissão para evitar três tentações: do
populismo penal, do fundamentalismo penal e do tratamento das leis por
intuição, sem base estatística.
Piñeiro entende que a norma
constitucional tem feição de cláusula pétrea, mas isso não impede que
seja alterada. Ele indicou que a idade média dos presos tem caído ao
longo das décadas: de 34 anos nos anos 80 para menos de 27 anos
atualmente. Segundo ele, dos 511 mil presos, 134 mil estão na faixa de
18 a 24 anos.
Participação
Além de uma série de audiências públicas, a Comissão Especial do Senado Federal encarregada de apreciar a reforma do Código Penal
receberá opiniões da sociedade por canais eletrônicos. O cidadão
interessado pode entrar em contato com seus representantes pelo serviço
Alô, Senado (0800-61-2211) e nos seguintes endereços:
www.senado.gov.br/alosenado www.twitter.com/alosenado .
A comissão pretende votar o novo Código Penal
até o fim deste ano. O primeiro prazo para emendas parlamentares se
encerra em 5 de setembro. Todo o trâmite do projeto, inclusive a íntegra
da proposta dos juristas, pode ser acompanhado na página do Senado .
O
senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) preside a Comissão Especial Interna,
que tem como relator o senador Pedro Taques e, como vice-presidente, o
senador Jorge Viana (PT-AC).
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Código Penal é a lei mais importante depois da Constituição, afirma ministro Dipp
Added Jan 6, 2010,
Autor: Coordenadoria de Editoria e Imprensa
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